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janeiro 03, 2012

Receita de Ano Novo



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

dezembro 08, 2011

Babel Argentina


A artista Marta Minujin criou, em setembro deste ano, uma escultura imitando a Torre de Babel em plena Praza San Martin, na Argentina. Para isso, utilizou mais de 30 mil livros, a maioria deles doados por 50 embaixadas. A ideia é que, depois de desmontada a torre, os livros alimentem o acervo da primeira biblioteca multilínguas de Buenos Aires. A cidade foi eleita pela Unesco a Capital Mundial do Livro, em 2011.


novembro 30, 2011

A imperfeição da leitura



Por Lucas Colombo

Unhas pintadas, óculos de lentes coloridas, camisetas de cores habitualmente berrantes. Falante e de humor largo, o poeta Fabrício Carpinejar tem uma figura que costuma gerar estranhamento por onde passa. O gaúcho de Caxias do Sul tem no "jeitão" uma forma de provocar o diálogo com o leitor e, assim, aproximá-lo de sua poesia, mantendo uma relação mais despreocupada com o gênero. "Para ler poesia, não é preciso estar de férias", diz.

Carpinejar tem 15 livros, como Cinco Marias (2004) e Meu Filho, Minha Filha (2007). Blogueiro, professor e colunista do jornal Zero Hora, acaba de lançar seu 16º livro, Borralheiro (Bertrand Brasil). Na coletânea de crônicas, aborda a atual condição do comportamento masculino. A crônica é um gênero ao qual Carpinejar tem se dedicado. Canalha!, por exemplo, recebeu o prêmio Jabuti de 2009 e Mulher Perdigueira (2010), o Açorianos de Literatura, oferecido pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre. Além de poemas e crônicas, sua produção comporta aforismos, que publica diariamente em seu Twitter, com mais de 106 mil seguidores. Esses aforismos também já viraram livro, batizado com seu endereço on-line: www.twitter.com/carpinejar (2009).

As reações negativas a Borralheiro, pelo fato de reunir crônicas que não são inéditas, o afetaram?
Reações negativas me pautam positivamente [risos]. A diferença é que, no blog, não se pode ver a sequência, o eco, a redundância dos textos. No livro, trabalha-se a unidade: temática, de estilo, de ritmo, de imagens. Certas crônicas caem fora justamente porque acabam empobrecidas perto de outras. O livro se faz colocando tudo no chão, formando uma tapeçaria de crônicas. E, aí, vai-se varrendo... Nesse processo, não há texto que não seja modificado. Todos são editados, ou retrabalhados. Temos uma ideia de que internet é a pressa de publicar. Não: o fato de estar na rede faz a gente caprichar pontualmente. Ao publicar crônica no blog, vou mexendo aqui e ali. Se deixamos um texto "na gaveta", não o mexemos tanto quanto na internet.

Há mercado para a poesia?
Existe. É choro de coitadinho não admitir que um livro seja bom e venda. É algo que humilha, constrange... A inveja compartimenta as coisas: "é isso, ou aquilo". E, na verdade, é tudo muito simultâneo. Há bons autores contemporâneos que têm prestígio na crítica e vendem bem, como Milton Hatoum e Cristovão Tezza. Se tu vais usar essa "lei", use para todos. Não só para teus desafetos...

A literatura vem perdendo seu papel na cultura?
Não, pelo contrário. Até porque a literatura está mais presente no cinema e na TV. Não perdemos espaço, somamos espaço. Hoje, poetas e escritores são mais "mediadores". Nunca houve tantos seminários, feiras e bienais do livro... As próprias redes sociais despertam interesse por literatura. Só pelos links que recebe, a pessoa já lê mais. Atualmente, há mais facilidade para trocar afinidades. Se tu gostas de um artista, é mais fácil compartilhar esse gosto. As redes têm aprofundado o conhecimento. As pessoas são mais espelhadas, hoje, no texto. O jovem está mais interessado em ler.

Entusiasta das possibilidades abertas pela internet, o escritor gaúcho lança livro de crônicas e afirma que não há receitas que levem a uma boa leitura

Como aproximar a poesia do leitor contemporâneo?
Com uma revolução inversa. A publicidade, por exemplo, passou a usar poesia. A poesia tem de invadir o espaço da publicidade. E desafiar as aparências. Ela faz a gente não se ajudar. Faz nadar melhor no desespero. É o avesso da autoajuda, que quer consolar sem fazer pensar muito. A poesia faz mergulhar na dúvida. E encontrar o riso no choro. É a única maneira de sair do choro, aliás. As pessoas acreditam precisar de tempo para ler. Mas se tu separas livro para ler nas férias ou para quando ficares doente, é para não ler. Leitura é feita assim: de maneira cortada, aos saltos, imperfeita como a vida. Procuramos a leitura perfeita, por isso ela não acontece. Não tem de estar de férias para ler poesia. Aceite que não precisa ler o livro até o fim, se não gostar dele! Livro não é estudo: é empatia, afinidade. Podes não gostar dele num momento e, em outro, gostar.

Seu "jeitão" busca dessacralizar a poesia?
Sou comunicativo. Corro o risco de ser rejeitado. Isso é bom. E, com jovens, tenho a possibilidade de ser mais bem aceito. Porque acaba sendo uma isca: eles pensam que estou provocando, mas estou produzindo. A literatura precisa ser tão enérgica e irreverente quanto a música. O livro é um palco, e não precisa de cortina. A cortina é educada. O problema é que, às vezes, acham que sou louco... [risos]. Tenho método, disciplina, organização. Sou tudo menos louco, pois sei voltar.

Concorda com a frase "poesia é o que se perde na tradução"?
Concordo sim. Poesia é ruído. É essa transposição impossível: o leitor nunca terá direito à ilha, mas ao mar que liga duas ilhas, que são o tradutor e o poeta. Esse mar é muito mais potente, pois a tradução é feita para preservar o silêncio da outra língua. O momento certo de calar, de se retirar. Não é feita para preservar a palavra. Isso é difícil.

Entre a poesia portuguesa e a brasileira, quais as diferenças marcantes?
Filosofia. A portuguesa é mais contemplativa, conversa mais com o ensaísmo. E a brasileira é mais sonora, mais rítmica. É uma "poesia-dança".

Quais as vantagens do idioma português para a versificação?
O português tem exuberância. É para ser domado. Uma língua de rodeio: tem de sentar no touro e permanecer o máximo de tempo. Coisa de caubói, de laçador. Tem muitos polissílabos, conjugações verbais, palavra com quatro ou cinco significados... É difícil ser culto sendo coloquial. É muito fácil ser corrompido pela fala, pela escrita. Para mim, é a língua mais difícil. Se analisarmos o espanhol, vemos que tem mais possibilidades que o inglês. Mas o espanhol precisa ainda ser ampliado. E o português precisa ser reduzido.

Qual sua opinião sobre a lei gaúcha que pretendia limitar o uso de estrangeirismos?
A lei representava um zelo excessivo. Subestimava a própria cadeia alimentar da língua: rejeitar e aproveitar o que é necessário. Há termos que caem em desuso, viram jargões técnicos... E seria tão feio usar "sítio", em vez de "site". Precisaríamos fazer uma reforma agrária digital [risos]. É muito difícil saber, hoje, a língua portuguesa. O escritor tem mais capacidade de errar o idioma porque ele o usa muito mais. Acredito em saber dançar a língua portuguesa. Já é difícil caminhar com ela...

Aceita a ideia de "preconceito linguístico"?
Não. É preciso tê-lo. Uma língua se faz de preconceito linguístico! Se mudar as regras, como se vai saber jogar, brincar? Mudando as regras do esconde-esconde, não tem mais esconde-esconde. É preciso ter normas. Queremos ser tão politicamente corretos que deixamos de ser conservadores. A língua é para ser conservadora! Para conservar inclusive o coloquial. "Se tu separas um livro para ler nas férias ou para quando ficares doente, é para não ler. A leitura é feita assim: de maneira cortada, aos saltos, imperfeita como a vida. Procuramos a leitura perfeita, por isso ela não acontece"

Você dá aula de formação a produtores e roqueiros. Como vê a diferença entre poesia e letra?
São processos distintos. Se bem que Chico Buarque confundiu essa distinção entre letristas e poetas... [risos]. Há letras dele que sobrevivem sem a melodia da canção. E também Caetano Veloso, Cartola, Noel Rosa... São casos isolados, e nem sempre acertaram, mas não podemos fundamentar por exceção. A letra de música não precisa se explicar, se ampara na própria melodia. Pois melodia já é letra; já sugere se é alegre ou triste. A literatura, não: mantém muito mais a ambiguidade. A letra não quer que tu não a entendas. Penso assim: quando o silêncio é muito forte, é literatura. Na música, o silêncio é mais curto. Na poesia, a melodia é a palavra. A música tem um sentido mais comunicativo, mais generoso. Não é preciso entrar nela para entendê-la. Já na poesia, tem de entrar. Não há como olhar de fora. A diferença é grande.

Você se considera parte da tradição de humor da literatura brasileira?
Meu humor é mais poético. É um humor diferente, mais delicado. O do Gregório de Matos, por exemplo, é mais veemente. O de Machado de Assis é sarcástico. Já o meu é o da situação. E gosto de trabalhar o esgotamento de um ponto de vista. O humor que consegue ser alegre e melancólico ao mesmo tempo.

Você tenta evitar o linguajar gaúcho? "Você" em vez de "tu"...
Nem preciso usar o "tu", de tão gaúcho que sou! [risos]. Tenho uma crônica em que digo ser irresistível, para a mulher, ver homem carregar saco de carvão [Estratégias de Sedução]. Mais gaúcho que isso, não dá. Mas acredito que, falando aqui do Estado, falo para o Brasil. Falo do RS, não termino no RS. É meu ponto de partida.

A crônica de costumes é tipicamente brasileira?
A crônica norte-americana é muito mais longa. Flerta com o ensaio, como a inglesa. Mas isso é mais regrado pelo espaço no jornal e na revista, do que por escolha do cronista. Aqui, o pouco espaço gerou uma virtude: o cronista se habituou a escrever menos, a ter resolução de contista. Porque não é para jogar futebol de salão. Acaba tendo uma intensidade, um raciocínio rápido, que é algo a ser retardado numa crônica dos EUA. Aqui se resolve tudo logo.

Por que o Twitter é ferramenta de poeta?
Pela densidade e por desfazer aparências. É a arte do desaforo. Twitter é tremor; é o quanto tu podes fazer o outro tremer. É o aparentemente fácil que complica. Uma frase de duas mãos: enquanto tu vais, estás voltando. Twitter não é para cantar, é para desafinar.

Saramago disse que o Twitter representa a "tendência ao monossílabo" e, de degrau em degrau, desceríamos "ao grunhido"...
Ah, não... De degrau em degrau, vamos é subir até o gemido. [risos].



Publicado na Revista Lingua Portuguesa - Edição 69

novembro 14, 2011

Molecagens do Tino

Tino Freitas, nosso eterno menino sem juízo, continua nos oferecendo passaporte garantido para a diversão. Assim como nas obras anteriores, Tino uniu letras com sabor e emoção nos dois últimos lançamentos, além de contar com afinadíssimas parcerias de ilustradores talentosos.



"Os três porquinhos de porcelana” (Ed. Melhoramentos) é uma divertida fábula contada com uma mistura da tradicional ladainha e temperada com toques de modernidade que nos chamam atenção: capítulos com títulos debochados - “Um capítulo”, “Outro capítulo”, “Mais um capítulo” - personagens com nomes inusitados - “Lô Bomau”, “Fadabá Cana” - que habitam locais surreais como o “Vale Ôso” e um enredo que nos faz grudar nas páginas até que o desfecho aconteça: como Comadre Coelha vai recuperar suas economias furtadas pelo Lô Bomau e curtir sua tão sonhada aposentadoria?

Como se não bastasse tanta loucura, o leitor ainda se depara com as ilustrações de Walther Moreira Santos. Já viu? Eu não conhecia e confesso: parei várias vezes para ler as imagens que fogem do tradicional e roubam nosso olhar e atenção pela forma como são trabalhadas dentro do livro.




Outro lançamento já traz um convite no título: “Quem quer brincar comigo?” (Editora Abacate). O livro tem um formato diferenciado, capa dura e charmosa que nos remete a antigos postais com decalques de brinquedos e não deixa dúvidas: a brincadeira é garantida!





A menina lê toda tarde e a cada toque da campainha uma nova surpresa se revela: o leitor acompanha a chegada das visitas abrindo “os segredos” do livro que se desdobra trazendo alegrias e companhias cada vez mais coloridas e alegres criadas por Ivan Zigg. Alguém resiste a essa brincadeira?
:o)




(fotos:ligiapin)

agosto 07, 2011

A gaiola

(foto: Kimiko Yoshida)



A vizinha acaricia a gaiola com o cuidado definido de uma predadora. É mais que amor; superior dedicação.

A gaiola tem um pano a cobri-la.

Tento cumprimentar:

Boa tarde, vizinha...
Nem uma, nem duas. À terceira tentativa consegue enfiar a mão na escuridão do pano - o secretíssimo seu segredo. Da janela, eu, o curioso. Ela, prazerosa, no esplendor do seu sorriso. Os músculos sólidos do antebraço regojizam-se em movimentos certeiros. Os olhos fechados. A gaiola-mistério intacta - não há som.

Vizinha, boa tarde...

No céu, escurecendo, brilha uma estrela solitária, tímida.

A gaiola estremece - oh! - é a outra mão, por baixo.

Transporta a gaiola para outro banco mais alto. Diante dos seus seios fartos repousa, sob o pano, o objeto coberto - quase uma extensão daqueles. Sob o pano desapareceram os dois antebraços e o princípio das tetas. E ela - sorri; com um nítido esgar de prazer.

Vizinha...?

Os olhos fechados, os pés sem tocarem com firmeza no solo. Abateu-se sobre nós uma repentina escuridão, uma ambiência ofusca.
A vizinha acaricia a gaiola com a precisão de um felino. Uma felina. O véu soergue-se como uma magia e julgo ver algo mais. Mas nada vejo.

Ela espreita - num início de deslocação.

Entram as orelhas. A nuca. Já não lhe vejo o cabelo. Não distingo o pescoço do pano que cobre misteriosa gaiola. Há silêncio - esse silêncio que antecede o impossível. E, num saltinho, coisa nenhuma, vaporosa deslocação, num "ai que me vou", um sopro noturno, como direi?, num momento menos havido, ela, a vizinha, repentina e leve, levemente repentina, toda ela, ancas enormes, pernas entroncadas, tornozelos desafogados, a vizinha, nesse "ai que me fui", desaparece! - como um vulto assustado. Fugaz. Ido.

Vizinha...!

A gaiola - a secretíssima objeta, repousa sobre o banco. O véu consta igualmente.

Há a estrela. Há o silêncio.

E eu:

Vizinha!, vizinha...

Resta só a quietude.

O chão, esse, acolhe um fiapo de cabelo, manso, que do entre-escuro cai, flutuando, em breve errância vertical. Só.

(ondjaki. e se amanhã o medo. língua geral, 2010)

abril 10, 2011

Balada de Alzira XVI

O que nós vemos das coisas são as coisas.
(Fernando Pessoa)

As coisas não existem. O que existe é a idéia melancólica e suave que fazemos das coisas. A mesa de escrever é feita de amor e de submissão. No entanto Ninguém a vê como eu a vejo. Para os homens é feita de madeira e coberta de tinta. Para mim também mas a madeira somente lhe protege o interior e o interior é humano. Os livros são criaturas. Cada página um ano de vida, cada leitura um pouco de alegria e esta alegria é igual ao consolo dos homens quando permanecemos inquietos em respostas às suas inquietudes. As coisas não existem. A idéia, sim. A idéia é infinita Igual ao sonho das crianças.

março 28, 2011

28 de março de 1941


"Querido, Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V."


Carta de despedida de Virginia Woolf ao marido, Leonardo Woolf em 28 de março de 1941, data de seu suicídio.

janeiro 05, 2011

Aventuras em versos


Luigi Amara nasceu no México, em 1971. Poeta e ensaísta, recebeu diversos prêmios literários como o Prêmio Hispano-Americano de Poesia para Crianças em 2006, com a obra "As aventuras de Max e seu olho submarino" - lançada no Brasil em 2010 pelas edições SM.




Em dezesseis poemas de formato variado (quadras, sonetos, haikai), o premiado escritor mexicano Luigi Amara compõe um relato único, feito de humor e aventura. De tanto ser esfregado, o olho de Max se desprende da órbita e embarca em incríveis aventuras: enfrenta uma aranha, passa a noite no aquário, arma confusão na escola, faz passeios noturnos na cabeça de um gato, desce pelo ralo e vai parar no fundo do oceano... Ao longo dos poemas, o leitor depara com baleias e medusas, polvos e tartarugas, ursos e morsas, um avô-morcego, uma menina-clorofila e até um gato que late.

As ilustrações - maravilhosas - ficaram por conta do inglês Jonathan Farr, e as páginas em preto e branco dão um ar "sinistro" e curioso ao texto de Amara.











[...]
"Também se assustou o olho
vendo a aranha de perto.
Quis gritar "Consigo ver!",
mas preferiu ficar quieto."
[...]

De "Retratos de família", tiro uma amostra da obra que pode render diversão entre os leitores que apreciam aventura e bom humor.

A insônia da Tia Pedra
Dorme pouco e apenas sonha
com a noite de sossego
em que se livre da insônia
e curta a cama sem medo.
Mas apenas fecha o olho
ouve um horr[ivel rumor,
de terremoto ou de tigre,
bocejo de urso, se for.
Acorda abafando um grito,
sonhando que adormeceu,
mas Tia Pedra não sabe
que os roncos são mesmo seus.
Todos na casa imaginam
que hiberna até o verão...
E a tia supõe que o mundo
é só desafinação.
Desperta, não ronca nunca,
e, quando ronca, desperta.
A Tia Pedra não dorme
e sonha de boca aberta.
"As aventuras de Max e seu olho submarino"
Poemas de Luigi Amara
Ilustrações de Jonathan Farr
Edições SM

novembro 24, 2010

Anotações de HH

Tem mais aqui.
;o)

novembro 18, 2010

Hoje o dia é deles!!

Foi divulgado hoje a tarde o nome dos vencedores dos Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional. Entre as 8 categorias, nossos queridos Jean-Claude Alphen e Tino Freitas, juntamente com Eucanaã Ferraz, foram merecedores do Prêmio Glória Pondé - Literatura Infantil e Juvenil. Parabéns!!

1o Lugar - Jean-Claude Alphen
Um sujeito sem qualidades
Ed. Scipione




2o lugar - Eucanaã Ferraz
Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos
Companhia das Letrinhas


3o lugar - Tino Freitas
Controle Remoto
Ed. Manati



Se você é como eu e ficou curioso em saber quem foi Glória Pondé, leia aqui.
;0)


novembro 15, 2010

Ela sabe o que faz!


Demorei pra comprar "Os Malaquias", da Andrea Del Fuego. Não sabia se de fato ia gostar, afinal quando todo mundo fala muito de uma coisa parece que ela perde o encanto. Puro engano. Devorei o livro em poucas horas, de uma tacada só. Quando terminei, não sabia direito o que pensar. Estava em estado de choque literário. Tantos artigos e notas sobre a publicação tem motivos, enfim. Em 73 breves capítulos Del Fuego, conhecida por publicar mini contos, narra a trajetória dos irmãos Malaquias, órfãos ainda crianças após um raio ter atingido os pais enquanto dormiam. Os Malaquias, é bom que se explique, existiram. Foram antepassados da autora e seus (des)encontros em décadas de vida envolvem o leitor num emaranhado de histórias que intercalam o tempo todo vida e morte, crendice e ciência, amor e inveja, realidade e fantasia. Há poesia na escrita, há metáfora, há alma e sobretudo, há o time da fala da Andrea em cada página. Leitura mais que indicada, pra ser saboreada, imaginada e vivida. Essa menina sabe o que faz!
Se você ainda não conhece Del Fuego, poderá ter o prazer de ver e ouvi-la aqui.
Aqui e aqui, mais sobre a obra.

outubro 30, 2010

Cardápio Completo



BALADA LITERÁRIA 2010 - De 18 a 21 de novembro
Autora homenageada Lygia Fagundes Telles

A BALADA LITERÁRIA completa cinco anos. E se consolida como um dos mais importantes e descontraídos eventos literários do país. É quase uma centena de artistas, nacionais e internacionais, em mesa de debate, em mesa de bar, no palco, trocando ideias, festejando lançamentos.

A homenageada desta edição é a escritora paulistana LYGIA FAGUNDES TELLES, que tem toda a sua obra relançada pela Companhia das Letras - como o romance As Meninas e o livro de contos Antes do Baile Verde.

"Desde o ano passado anunciamos esta celebração à grande Lygia. Ela aceitou com alegria o brinde que, agora, vamos levantar para ela", diz o escritor pernambucano Marcelino Freire, criador e organizador do evento, ao lado da Livraria da Vila e da Ato Cidadão e com o apoio da Biblioteca Alceu Amoroso Lima, Centro Cultural b_arco, Edith, Itaú Cultural, Goethe-Institut, SESC Pinheiros, Teatro Brincante, Teatro da Vila e do bar Mercearia São Pedro. Confira, a seguir, a programação completa.

PROGRAMAÇÃO
18 DE NOVEMBRO (QUINTA-FEIRA)
11h00 - Livraria da Vila:
Uma conversa com a homenageada da BALADA LITERÁRIA 2010 MONA DORF [jornalista] e NELSON DE OLIVEIRA [escritor] conversam com LYGIA FAGUNDES TELLES. Participação especial da atriz LEANDRA LEAL.

14h30 - Livraria da Vila:
Uma conversa sobre literatura, teatro e televisão ANDRÉA DEL FUEGO [escritora] e IVANA ARRUDA LEITE [escritora] conversam com os dramaturgos e novelistas ALCIDES NOGUEIRA
e LAURO CÉSAR MUNIZ.

16h30 - Livraria da Vila:
Uma conversa com dois dos mais importantes escritores em língua portuguesa FREDERICO BARBOSA [poeta e diretor da Casa das Rosas] conversa com o poeta português E. M. DE MELO E CASTRO e com o romancista angolano JOSÉ EDUARDO AGUALUSA.

19h00 - SESC Pinheiros:
Um bate-papo com um dos principais escritores e ensaístas argentinos RONALDO BRESSANE [escritor e jornalista] conversa com ALBERTO MANGUEL [autor, entre outros, de "História da Leitura"].

20h30 - Centro Cultural b_arco:
Balada de lançamento do selo EDITH, seguido de show em homenagem ao Mês da Consciência Negra com a cantora FABIANA COZZA.

19 DE NOVEMBRO (SEXTA-FEIRA)
11h00 - Livraria da Vila:
Uma conversa sobre poesia, rap e repente WILSON FREIRE [poeta e compositor] conversa
com CIDA PEDROSA [poeta], EMICIDA e HUGO PUSSOLO [poeta e ator].

14h30 - Livraria da Vila:
Um bate-papo sobre teatro e literatura SÉRGIO ROVERI [dramaturgo] conversa com BETH GOULART [atriz ] e MARCELO RUBENS PAIVA [escritor e dramaturgo].

16h30 - Livraria da Vila:
Um dos principais editores do país conversa sobre a literatura feita fora do eixo Rio/São Paulo
SAMUEL LEÓN [da Editora Iluminuras - SP] conversa com CRISTHIANO AGUIAR [de Campina Grande], JOSÉ REZENDE JR. [de Brasília - vencedor do Jabuti 2010 na categoria Contos], PAULO SANDRINI [de Curitiba] e VERÔNICA STIGGER [de Porto Alegre, radicada em SP]

19h30 - Goethe-Institut:
Uma conversa com um dos principais nomes da literatura alemã HÉLIO GUROVITZ [diretor da redação da revista Época] conversa com o escritor alemão ULRICH PELTZER, que lançará pela Estação Liberdade o romance Parte da Solução. Participação especial do escritor MARCELO CARNEIRO DA CUNHA.

20 DE NOVEMBRO (SÁBADO)
11h00 - Livraria da Vila:
Um bate-papo um dos grandes nomes da literatura brasileira - pioneiro em oficinas literárias LOURIVAL HOLANDA [professor da UFPE] conversa com o gaúcho LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL.

13h30 - Espaço Plínio Marcos:
Jovens poetas, de diferentes cidades brasileiras, fazem uma homenagem ao poeta ROBERTO PIVA, em um sarau na Praça Benedito Calixto comandado pelo coletivo BARKAÇA, de Minas Gerais.

14h30 - Biblioteca Alceu Amoroso Lima:
Uma mesa em homenagem ao editor MASSAO OHNO, VANDERLEY MENDONÇA [editor da Demônio Negro] conversa com CELSO DE ALENCAR [poeta], EUNICE ARRUDA [poeta] e PLINIO MARTINS [editor da Ateliê Editorial].

17h00 - Biblioteca Alceu Amoroso Lima:
Um bate-papo com um dos grandes nomes da poesia brasileira IVAN MARQUES [professor da USP e criador do programa de TV Entrelinhas] conversa com AUGUSTO DE CAMPOS.

19h00 - Biblioteca Alceu Amoroso Lima:
Show literomusical com CID CAMPOS e BANDA, com a participação de AUGUSTO DE CAMPOS.

20h30 - Teatro da Vila:
Peça teatral "Los Críticos También LLoran", em homenagem ao escritor chileno ROBERTO BOLAÑO.

22h00 - Mercearia São Pedro:
BALADA DE LANÇAMENTO dos livros:
- "Tempo Bom", antologia organizada por SIDNEY ROCHA e cuja venda está sendo revertida, desde a publicação, para os desabrigados das chuvas do Nordeste.
- "Brasília Prosa & Verso - 50 Anos em 6", antologia com os autores André Giusti, Fernanda Barreto, José Rezende Jr., Liziane Guazina, Nicolas Behr e Pedro Biondi.
- "Dentes de Delicadeza", livro de poesias de EVERTON BEHENCK [Não Editora, RS].

21 DE NOVEMBRO (DOMINGO)
11h00 - Livraria da Vila:
Bate-papo sobre prosa, poesia, crítica e filosofia MARCELINO FREIRE [escritor] conversa com
ANTONIO CÍCERO [poeta e filósofo] e JOSÉ CASTELLO [escritor e crítico, que estará lançando
o romance "Ribamar"].

15h00 - Centro Cultural b_arco:
Gravação ao vivo do programa de TV JOGO DE IDEIAS CLAUDINEY FERREIRA [jornalista e coordenador literário do Itaú Cultural] conversa com ALICE RUIZ [poeta e compositora],
e VITOR RAMIL [escritor, cantor e compositor].

17h00 - Centro Cultural b_arco:
Um bate-papo com jovens artistas sobre música e literatura JOMMARD MUNIZ DE BRITO [poeta] conversa com ARRUDA [poeta e compositor], BOTIKA [cantor e compositor], ESTRELA LEMINSKI RUIZ [poeta e cantora] e RAPHAEL GANCZ [escritor].

20h00 - Centro Cultural b_arco:
SHOW DE ENCERRAMENTO com a banda carioca OS OUTROS, além de leituras com convidados - com destaque para a participação da atriz Karina Giannechinni, interpretando texto de Xico Sá, e a dos poetas do grupo mineiro Barkaça.

ONDE ACONTECE A BALADA:
BIBLIOTECA ALCEU AMOROSO LIMA
Rua Henrique Schaumann, 777
Pinheiros - Tel. 3082-5023

ESPAÇO PLÍNIO MARCOS
Praça Benedito Calixto
- Durante a feira

LIVRARIA DA VILA
Rua Fradique Coutinho, 915
Vila Madalena - Tel. 3814-5811
www.livrariadavila.com.br

CENTRO CULTURAL b_arco
Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426
Pinheiros - Tel. 3081-6986
www.obarco.com.br

GOETHE-INSTITUT
Rua Lisboa, 974
Pinheiros - Tel. 3296-7000
www.goethe.de/saopaulo

MERCEARIA SÃO PEDRO
Rua Rodésia, 34
Vila Madalena - Tel. 3815-7200

SESC PINHEIROS
Rua Paes Leme, 195
Pinheiros - Tel. 3095-9400

TEATRO BRINCANTE
Rua Purpurina, 428
Vila Madalena - Tel. 3816-0575
www.teatrobrincante.com.br

TEATRO DA VILA
Rua Jericó, 256
Pinheiros - Tel. 11 3032-3448

setembro 07, 2010

Espanador de tristezas




"tinha aprendido que era muito importante criar desobjectos.
certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar o cinzento. não munido de nenhum artefacto alegre, inventei um espanador de tristezas.
era de difícil manejo – mas funcionava."


ondjaki

setembro 01, 2010

Convite


agosto 20, 2010

Para acalmar as dores

Presente de quem já é um presente!
Esta é a tua safra
Minha filha, junto a teus irmãos não lamentem nem digam,
coitada da mamãe...
Ninguém é coitada, nem eu.
Somos todos lutadores.
Se souberes viver, aproveitar lições, escreverás poemas.
Teus cabelos brancos serão bandeiras de paz.
E viverás na lembrança das novas gerações.
Não te queixes jamais das mãos vazias que sacodem lama.
E pedaços rudes de um passado morto não sejam revividos,
sem mais empenho senão enxovalhar, ferir e destruir.
Recria sempe com valor
o pouco ou o muito que te resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e de lama que procuram te alcançar.
Esta é a tua luta.
Tua vida é apagada. Acende o fogo nas geleiras que te cercam.
O tardio poema dos teus cabelos brancos.
Recebe como oferta as pedras e a lama da maldade humana.
Esta é a tua safra.

Cora Coralina
(1889-1985)

julho 28, 2010

Suíte Francesa

Vini, se não fosse por você eu jamais saberia que Irène um dia existiu.
Meu obrigada infinito pelo comentário feito um dia, essa leitura foi inesquecível!
;o)

Suíte Francesa, de Irène Némirovsky (Cia das Letras), foi escrita entre os anos de 1941-1942. Planejada inicialmente para ter 5 partes, totalizando mil páginas e construída como uma sinfonia (inspirada na 5a Sinfonia de Beethoven), a autora conseguiu terminar apenas 2 delas antes de ser presa e levada para Auschwitz no comboio número 06, em 17 de julho de 1942.
O romance, com mais de 500 páginas, foge surpreendentemente dos padrões já conhecidos quando a temática se refere à II Guerra Mundial. Aqui a autora destaca as mudanças que gradativamente ocorrem no cotidiano dos franceses às vésperas da ocupação nazista.

Na 1a parte do romance, "Tempestade em junho", Irene circula com maestria por núcleos independentes de personagens de diferentes classes econômicas que se deslocam de Paris durante a Débâde, a fim de se refugiarem na chamada Zona Livre (ainda não ocupada pelo III Reich). Tendo a fuga como fio condutor, a autora nos leva a um mergulho irressistível pelo universo de cada personagem, confrontando-nos com as novas situações por eles vividas e os múltiplos exemplos da personalidade humana. Ficamos cara a cara com a hipocrisia, o esnobismo, a xenofobia, a presunção e a falsidade (para não citar outras qualidades) da chamada burguesia que, presa aos bens materiais dos quais se recusa se separar e impossibilitada de aceitar a ideia de receber tratamento igual aos "outros" naquele momento crítico, deixam o leitor ora perplexo, ora envergonhado diante da mediocridade humana. Com raras exceções, como do casal Michaud e do padre Phillipe que conservam traços de integridade (mas que ainda assim vivem situações que nos chocam por serem vítimas de personagens desumanos) Irène mostra que tais pessoas conseguem ter seu caráter transformado na medida que suas vidas se transformam também.

Na 2a parte, "Dolce", o romance se estrutura no campo e a autora traz um texto recheado de descrições e sensibilidade, sem no entanto cansar o leitor. Famílias tradicionais vivem a espera do filho ou parente feito prisioneiro na guerra em meio a chegada dos refugiados da cidade. Mais uma vez, o medo de compartilhar seus bens traz a indiferença e anula a esperança da solidariedade que se espera encontrar no próximo. Além disso, abrigar soldados alemães (não judeus) dentro de casa traz em cada morador do vilarejo uma insegurança diante do olhar alheio. Irène faz um contraponto interessante criando Bruno von Falk, um soldado alemão sensível e delicado em meio à mesquinhez dos franceses locais, por quem uma jovem francesa se apaixona.

Pertencente a uma família judia tradicional e burguesa, Irène escreve com realismo mantendo distanciamento do texto, sem julgar os fatos ou seus personagens. Apesar da temática, consegue demonstrar ironia e humor (negro) em determinadas situações sendo impossível não rir diante delas (como a cena em que o presunçoso escritor Corte tem sua ceia - que lhe custou uma fortuna - roubada).

A obra de Irène ficou durante anos sob os cuidados de suas filhas, Élisabeth e Denise, sobreviventes da guerra. Mas foi somente em 1954 que as filhas resolveram ler o manuscrito em letras míudas que a mãe havia deixado. Surpresas por não terem em mãos um diário e sim uma obra de violento valor literário e histórico começaram um lento processo de decifração.


Suíte Francesa só foi publicado em 2004 e já é considerado o mais importante documento literário pós guerra, depois dos diários de Anne Frank.
O livro traz o prefácio de Myriam Anissimov contando a tragetória de Iréne - sua vida em família e sua relação de ódio com a mãe - e características de sua escrita. No final, trechos de seus manuscritos e relatos do marido e de amigos que estiveram em sua busca, antes da certeza da sua morte.

julho 25, 2010

Os Malaquias

Saído do forno para as prateleiras esta semana, "Os Malaquias" é o novo romance da linda Del Fuego. Não li (aindaaaaaaa) mas estou ansiosa para devorá-lo. Veja aqui e aqui o que andam dizendo por aí.
;o)

julho 04, 2010

Controle Remoto

Vez ou outra o Correio passa aqui em casa e deixa uma boa surpresa pra alegrar meu dia. Desta vez não foi diferente.


O mais novo filhinho de Tino Freitas chegou pra me desviar da derrota do Brasil na Copa e me encantar com o resultado final da história que, há algum tempo, sei que ele vinha rabiscando aqui e ali.


"Controle Remoto" (il. Mariana Massarani/ Manati) vai divertir a criançada que usa esse acessório tecnológico com uma intimidade quase absurda. O aparelho é um dos personagens dessa história inusitada em que pais e filho se relacionam basicamente através dele criando, sem perceber, um des-controle na relação familiar.
Já dizia uma amiga, o ser humano não nasce com "manual de instrução" e saber lidar com o outro requer tempo, sabedoria, disposição e amor. Tino foi pontual e usou a criatividade ao tocar no tema - quem lida com crianças (como eu) sabe que atualmente, o que mais falta nas famílias é o vínculo afetivo entre pais e filhos.


A vida moderna atrai pela praticidade, pelas novidades e descobertas diárias, mas afasta as pessoas pelo acúmulo de preocupações e atividades a cumprir. Quem dispõe de tempo para olhar os filhos com a devida atenção? Não seria mágico se cada bebê viesse já da fábrica, acompanhado de um controle que ajudasse os pais na sua criação? Seria perfeito!! Quando eu li esse texto pela primeira vez, há uns meses atrás, fiquei empolgada com o "menino" e ao mesmo tempo chocada com o chute certeiro que o Tino deu. Não é apenas um livro infantil, definitivamente. A minha vontade é que cada pai e mãe tenha exemplar para uma leitura "solitária" e depois compartilhada com seus filhos - tenho absoluta certeza que se identificarão com cada situação citada ou pelo menos, com a maioria delas. Minha esperança é que, ao final da leitura, os pais apertem a tecla STOP - não do filho, mas do des-controle que carregam em si para, com muita sabedoria, dar um REWIND e começar tudo de novo, como deveria ser.

(fotos:ligiapin)

Tino já mostrou, nas publicações anteriores que palavra e criatividade fazem parte do seu mundo. A parceria com Mariana Massarani e a Manati foi novamente muito feliz. "Controle remoto" é visualmente alegre, colorido e divertido além de contar com uma capa dura lindíssima que faz desse casamento texto+imagem uma excelente opção de presente. Aperte o PLAY e vá agora buscar o seu!
;O)


maio 23, 2010

Novas cores para Alice

A Livraria Cultura esteve em festa nesta última 6a feira. Cris Eich e Silvana Salerno reuniram amigos e fãs no lançamento de "Alice nos país das Maravilhas", pela DCL.

Autora e ilustradora na mesa convidativa: o passeio pelo país das maravilhas dava direito a chá, doces e surpresas.

Cris e Daniela Padilha, a editora-menina da DCL. Ao lado das flores, a nova edição da obra de Lewis Carroll.

Cris fazendo gracinha no meu exemplar. ;o)

A sugestão é organizar o próximo lançamento com os modelitos de Alice. O meu era de listras e bolinhas rosas. E detalhe: cabelos azuis porque a tendência é "se jogar" na modernidade. Phoderosssa!



il. Cris Eich

il. Cris Eich

il. Cris Eich

il. Cris Eich
Clicando aqui , você vai conhecer outras ilustras e cores da Cris!
;o)

abril 10, 2010

O alfarrabista que deu certo


André Garcia, criador do Estante Virtual, portal de compra de livros usados mais famoso do país, está na Edição 53 da Revista Língua Portuguesa. A entrevista, que reproduzo parcialmente, pode ser lida na íntegra clicando aqui.

O brasileiro não gosta de ler ou não compra livros por achar muito caro?
Os dois. Há muita gente que poderia gostar e não gosta, mas há ainda mais gente disponível à leitura se o livro fosse barato. Para quem não gosta de ler, há a razão educacional: a escola ensina a não gostar, usa uma metodologia que tem êxito inverso. Temos uma base pedagógica em que ler é obrigatório e a biblioteca é vista como lugar de castigo. Mas leitura é subjetividade, é ver o que agrada à sensibilidade e se ajusta à sua forma de ser, ao seu momento. A escola nunca me deu esse espaço e duvido que, salvo exceção, garanta isso a muito aluno. Para os que driblam a escola e aprendem a gostar de ler, há um preço alto a ser encarado. Se você considerar só a lista dos dez mais vendidos, a média é de R$ 43 o exemplar. Lê esses livros quem tem mais recurso.

O livro pode virar fator de exclusão social?
Sem estímulo à escolha, sim. Há essa segmentação, em que uma minoria de livros é bem mais apresentada que todo o resto. A leitura termina aberta a um universo restrito de não mais que uns vinte livros. Uma derrota para a cultura. As pessoas leem só isso? O.K., melhor que não ler. Mas é um quadro de pauperização preocupante. Não basta democratizar a leitura. É preciso democratizar os autores de qualidade.

Daí o papel dos sebos...
Drummond tem uma crônica, O Sebo, em que diz que o sebo é o verdadeiro templo da democracia literária. As livrarias se concentram nos 20% de produtos responsáveis por 80% das vendas. Fazem isso não porque são "malvadas", mas por não haver espaço para tudo. Não há como dar vazão a 1.500 títulos novos todo mês, 52 por dia, fora as reedições. Já o sebo virou uma reserva cultural. Nele, há os de agora, os de antes, os fora de catálogo. Estamos falando da história editorial do país, não só dos livros do momento.

Muitos evitam sebos pela poeira e desordem, não é?
Quem vê o sebo como o lugar de obras raras ou esgotadas deixa de usufruir o que ele tem a oferecer, pois trabalha com livro novo, seminovo ou em edição. À medida que as livrarias priorizaram os mais vendidos, os sebos viram que a demanda por eles cresceu. Boa parte se modernizou, está organizada. Os sebos com bagunça, obras empilhadas, empoeiradas, hoje são minoria.

O início foi difícil?
No um ano que levou para preparar o site, mapeei o mercado. No final de 2005, quando lancei o Estante, contávamos com 68 sebos. Hoje temos 600 mil clientes a quem vendemos 5 mil livros ao dia. É mais do que as lojas de rua da Travessa, rede tradicional do Rio, ou do serviço on-line da Cultura, de São Paulo. Não vendemos o livro diretamente, fazemos a intermediação entre o livreiro e o comprador. A cada mil livros on-line, cada sebo fatura em média R$ 600 mensais.

Que livro é procurado?
Literatura estrangeira e brasileira, uns 20% e uns 15% da procura cada, o resto é pulverizado. O livro mais vendido é Vidas Secas, do Graciliano Ramos, que não chega a 900 cópias vendidos. É pouco, claro. No Estante, a venda é pulverizada, não há a discrepância das livrarias, em que um livro dispara milhares de cópias e o 50º mais vendido não passa de dezenas de exemplares. Nos sebos, não. O consumo é bem mais equilibrado. Considero isso uma vitória deles, que têm acervos diversificados e servem a todo gosto, não a um ou outro autor, editora ou tipo de leitura.

Para além da venda, a internet estimula a leitura?
Autores que não conseguem editora escoam sua produção em blogs. Nessa hora, a internet ajuda a ler e a criar. Mas o gênero mais lido da rede é o jornalístico, leitura informacional, utilitária, não uma ordem de leitura, digamos, mais preciosa. A internet atrapalha, de fato, quando a ênfase da leitura é nos simulacros de interação, como orkut, MSN, Twitter. Eu me pergunto se essas são reais formas de interação, se as comunidades interagem como comunidade. No Orkut, são muito usadas como decalque para a pessoa inserir em seu perfil. Não há convivência genuína.