
janeiro 04, 2012
Edney Silvestre

novembro 15, 2011
Tsunami literário
O escritor angolano Valter Hugo Mãe radicado em Portugal, que já foi chamado por Saramago de 'tsunami literário', conta que o seu estilo vem da influência dos escritores brasileiros.
*Qual a questão que mais o intriga na variante brasileira da língua?
Além de me intrigar, aquilo que mais me instiga e agrada é o linguajar índio das línguas que existiam no Brasil. Você caminha pelas ruas e vê nomes indígenas por toda parte. E imagina quantos sítios indígenas haviam. O português brasileiro é mais permissivo, menos ortodoxo. Permite experimentações.
*Como foi viver no Brasil?
O Brasil vem sendo uma marca na minha formação e uma experiência cultural desde menino, por causa de toda a informação que chega em Portugal por meio das telenovelas e da música. A literatura chega menos, chegam alguns clássicos. A telenovela chega todos os dias, e muitas. Quando conheci Marcelino Freire, eu me sentia uma esponja para absorver tudo - eu devia ter uns 28 anos na época. O Marcelino, imediatamente, me rodeou de outros nomes que apareceriam mais tarde, tornando-se referência, como Evandro Afonso Ferreira e Marcelo Mirisola. Eu o conheci (Marcelino) por acaso. Antes de vir ao Brasil, resolvi colocar na internet uma mensagem dizendo que gostava de conhecer escritores, pessoas ligadas aos livros. E o apelo deu muito certo.
*De que maneira o Brasil influenciou a sua obra?
Tem um pouco que ver com esse fascínio do despudor da língua. Sendo português e escrevendo no português característico de Portugal, faço muita deturpação, às vezes embargação, mas faço muita experiência, tento experimentar um pouco. Dar muita atenção ao modo como as pessoas falam é algo muito típico dos escritores brasileiros. Faço sempre essa experiência e, certamente, essa é uma influência de escritores brasileiros.
*Como vê a condição do autor lusófono na África?
É um sofrimento. Uma tristeza. A África é um continente encurralado. Há uma muralha muito difícil de transpor. Me parece que os escritores africanos são vistos como aquela cota obrigatória a que se deve cumprir para minorias, como em empregos e vagas nas universidades. Poucos conhecem e têm condições de ir ao pé dele (do continente africano) e ver a beleza da obra dele. O que acontece com alguns escritores africanos é que estão muito disponíveis a preencher essas cotas e outros ficam recônditos, porque a África é um continente recôndito. Muitos escritores não vivem na África, estão na Europa, em outros países. Falta abrir uma oportunidade de a África se mostrar a partir de onde ela está, sem precisar se deslocar. Há escritores escondidos em Portugal, como o Luandino Vieira. Há um mais novo chamado Vilmar, o Valdir Silva. O Valdir Silva escreve contos.
*A literatura perdeu a relevância cultural?
A relevância dela é absoluta. Falo isso como escritor, de como ela é importante para a compreensão do mundo. E para perceber um assunto de forma mais profunda. De maneira muito lúdica, vejamos a importância que têm os livros para as crianças. É utópico pensar que o livro vai mudar o mundo. Mas se acontecer com uma pessoa, acredito que os livros podem ter uma relevância cultural muito grande. Estive na Ilha da Madeira para pesquisas sobre A Máquina de Fazer Espanhóis. E conheci o pessoal de um ateliê de arquitetura. Todo o ateliê estava a ler o livro, pois o dono o fez como tarefa, mas eles estavam a gostar muito. Estavam a projetar um abrigo. E a refazer o projeto, pois, no meu livro, desaconselho a criar abrigos para idosos perto de cemitérios. E o escritório estava revendo isso junto à construtora, mudando o local da obra. Compensa-me muito pensar que a história que conto tenha algo de extrema verdade. Algo capaz de interferir num projeto desta maneira.
*Numa passagem do livro, esse personagem de 84 anos, o Silva, se refere a ele e ao Silva da Europa. Ser Silva representaria duas condições no mundo?
Sim, há essa condenação de os portugueses serem Silvas. Em Portugal, as silvas são aquele mato agreste, essa coisa que cresce selvagem e se alastra no lugar mais agreste, capaz de superar dificuldades. O mato é robusto e algo rasteiro. Nasce um povo robusto, capaz de superar dificuldades, mas ao mesmo tempo rasteiro. Ninguém cai nas silvas porque as silvas têm espinhos. Uma espécie de planta rasteira, agreste, que tem uma condição, uma oportunidade de sair da pequenez. Portugal é um país que desenvolve um sentimento de perda muito grande. Mesmo que não seja verdade, as pessoas têm a sensação de que estamos mais pobres de alguma coisa. Os Silvas são duas plantas rasteiras. Um sonhando com, mas sem oportunidade, uma coisa presa, muito infeliz com seus próprios remorsos.
"É utópico pensar que o livro vai mudar o mundo. Mas se acontecer com uma pessoa, acredito que os livros podem ter uma relevância cultural muito grande".
*Me parece que entre os portugueses há um sentimento de alijamento em relação à Europa.
Acham que a Europa começa na Espanha. Isso aparece um pouco no meu primeiro romance. Quando era pequeno, minha mãe dizia que além das arvores estava a Espanha, para que não nos entrássemos mata adentro. O que era uma mentira terrível, pois a Espanha ficava a mais de 100 quilômetros. Achávamos que nosso país estava confinado àquela vila. Até que um dia alguém soltou um cavalo e havia algo na cabeça da pessoa que estava no cavalo que reluzia e achávamos que era um rei da Espanha e voltamos muito histéricos para casa, dizendo que o rei iria querer reaver as suas propriedades. Os portugueses costumam ter expectativa além da linha. Como se tivéssemos essa estranheza de não corresponder a nada mais da Europa. As pessoas (de Portugal) até falam: "Lá na Europa". Somos europeus, fomos criados europeus. Mas é uma coisa intrincada, como um labirinto de espinhos.
*O Silva de 84 anos sai da depressão quando um amigo diz que o Esteves que está no abrigo é o do poema Tabacaria, de Pessoa. Ali começa a sentir o orgulho de sua condição portuguesa. É assim a alma lusitana, ter mais orgulho da autoimagem literária do que do concreto? Ou da sua história?
Os portugueses são muito céticos. Tudo é ironizado. Os colonizadores não só de Portugal, mas da Espanha, creio, são assim. Há uma violência contida com relação aos povos que encontra. E por isso ninguém tem essa ideia cega de glorificar uma coisa tão contraditória, tão ambígua quanto foram as descobertas (portuguesas). Mas há uma espécie de identidade que vem muito da arte, da literatura, da música. Durante os anos 80, sofreu-se muita retaliação. As gerações novas queriam muito desprezar o fado por conta desse sentimento triste e entristecedor, mas na verdade muito genuíno. Esse sentimento, sendo embora triste e entristecedor, vem muito de dentro de Portugal, ainda que queiramos ser de outro modo. Como se fosse impossível deixar de ser quem somos. Claro que há pessoas felizes, que dançam samba e sabem até dançar. Mas não há como fugir de certos sentimentos, como o fado faz parte, o Fernando Pessoa faz mais parte ou a maturidade do coletivo. O que sonho para o meu país é que as pessoas sejam mais crentes, que acreditem, sonhem mais. E sejam mais confiantes.
*Para criar o personagem que vai para um abrigo, você acompanhou ou inseriu-se num abrigo?Não. Trabalhei para me sentir um senhor de 84 anos. A primeira vez que ouvi falar do poema Tabacaria tinha uns 8 anos. E fiquei chocado quando a professora leu o trecho que fala de um homem sem metafísica. Achei que Fernando Pessoa foi mal criado com ele, mas guardei isso pra mim. Adoro Pessoa, mas nesse livro a arma de um crime, não à toa, é um livro. Pensei comigo, vou roubar esse personagem para devolver a metafísica a ele. A completude da vida se dá quando estamos apaziguados e o Silva redescobre um modo de viver sua terceiridade, algo que meu pai não viveu. As relações mais fortes são as que precisam que nos afastemos. Alguns dizem que foi a crise econômica que motivou o romance, outros falam da morte de seu pai. Não diria a crise, mas um acumular de tudo. Vou roubando um pouco de tudo o que leio sobre o que escrevi. Alguns fazem uma leitura mais política de meus livros e a usam para acusar a política; outros vão à esteira de pensar a terceiridade, pois, de fato, muitos da minha geração não terão ninguém para assegurá-los. E há a visão poética, de a amizade como um tipo de amor, mesmo não físico. De fato, penso que a família é quem escolhemos para sermos fiéis. O livro parte dessa ideia de pensar como seria a vida desse homem mais velho que eu. Sabia que ia ocupar o espaço do meu pai com um livro. Ele morreu aos 59 anos. A perspectiva da morte fez com que criasse um apaziguamento com o que ele é. Vivia a queixar-se de tudo e, quando soube que tinha uma doença grave, mudou, passou a cuidar melhor dele, da família, de mim.
novembro 01, 2011
Poesia

Por Sérgio Rizzo - Revista Lígua Portuguesa (ed.71)
Não são poucos os que encaram a poesia intimidados, como se essa atividade criativa fosse reservada a "eleitos". O respeito cerimonioso termina por afastar muita gente de uma prática textual que exercita mais do que a capacidade de escrever. Poemas ativam um modo particular de apreender o mundo e de se relacionar com ele, como demonstra o drama sul-coreano Poesia. Ex-professor de ensino médio e escritor de prestígio em seu país, o diretor e roteirista Lee Chang-dong conta a história de Mija (Yun Jeong-hie). Solitária, já acusando o desgaste físico provocado pela idade, ela sobrevive graças a bicos como enfermeira. Além disso, precisa cuidar do neto adolescente; a mãe do rapaz mora em outra cidade e, pelos indícios, não parece muito próxima a ele.
Esforçada e prestativa, Mija balança, no entanto, quando descobre ser vítima do mal de Alzheimer. Ainda em sua fase inicial, a doença já lhe provoca pequenos lapsos de memória e de uso da linguagem verbal. A poesia entra em seu cotidiano nesse momento doloroso em que, forçada a lidar com a degeneração e a perspectiva da morte, ela prefere agarrar-se à vida e, entre outras atitudes, inscreve-se em um curso ministrado por um poeta.
Intimista
Na turma, ninguém tem experiência com criação literária ou predileção muito especial por leitura. São leigos. E daí? Uma das primeiras atividades propostas pelo professor, ponto de partida para a compreensão do que representa a poesia, consiste em pedir aos alunos que olhem para o mundo como nunca o fizeram. Ou seja: antes de escrever, que observem. E que o façam empenhados em promover descobertas. As palavras vêm em seguida.
Poesia recebeu o prêmio de melhor roteiro pelo júri oficial e uma menção especial do júri ecumênico no Festival de Cannes de 2010. Essas distinções ajudaram a dar maior visibilidade a um filme discreto e intimista que, sem elas, correria o risco de passar despercebido na barulheira dominante do mercado cinematográfico. Descobrir sua beleza é também um modo de se dedicar, como espectador, à poesia.
POESIA (Shi) - Coreia do Sul, 2010, 139 min. Direção e roteiro: Lee Chang-dong. Com Yun Jeong-hie, Ahn Nae-sang, Lee Da-wit. Distribuição em DVD: Imovision
outubro 09, 2011
Pieter Bruegel, O Velho
Durante a Idade Média e início da Idade Moderna pragas, epidemias e guerras religiosas e políticas assolaram a Europa. Falou-se em "castigo divino", como se não houvesse possibilidade de salvação para a humanidade. Uma das formas em que esta visão apocalíptica do futuro proliferou-se foi A Dança da Morte: uma temática do imaginário popular medieval que gerou inúmeras manifestações populares, como a cerimônia realizada nos fundos da igreja (cemitério) no século XIV, que era acompanhada por sermões falando do caráter impiedoso da morte. Os principais personagens eram "a vítima" e "a morte" (representada por pessoas vestidas com uma roupa preta e justa, sobre a qual eram pintadas as linhas de um esqueleto, e usando uma máscara de caveira). Em todos os casos a morte triunfava ao final, ceifando a vida da vítima (ver Ciclo da Vida).
Na Florença do século XVI este ritual perdeu um pouco da ênfase moralizante, tornando-se uma cerimônia mais aberta e festiva. O Triunfo da Morte, de Bruegel, mostra que nos Países Baixos a influência da tradição medieval manteve-se forte mesmo no século XVI. Vemos aqui o exército da morte avançando sobre uma paisagem sóbria, exterminando tudo, deixando apenas destruição e desolação.
março 16, 2011
novembro 14, 2010
Sapatos e escravidão
setembro 19, 2010
Despedida

setembro 12, 2010
Pagu
Uns olhos de fazer doer..."
Pagu - foi assim que o poeta modernista Raul Bopp apelidou Patrícia Galvão ao pensar que seu nome era Patrícia Goulart. Quem já viu a foto de Pagu há de concordar com Bopp - seu olhar caído, além dos lábios fortemente pintados, prendem nossa atenção. Mas não é esse o traço mais marcante dessa escritora.

Patrícia Rehder Galvão, nasceu em 1910 em São João da Boa Vista. De personalidade forte, sempre foi muito avançada para a época - fumava em público, falava palavrões e usava roupas transparentes, entre outros "horrores" para seu tempo. Com 18 anos já integrava o movimento antropofágico ao lado de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Se tornou a musa do movimento e para escândalo da sociedade, se casou com Oswald em 1930, com quem teve um filho: Rudá. Se tornou militante comunista, foi a primeira mulher a ser presa no Brasil por motivos políticos. Num total de 23 prisões, Pagu viajou o mundo, foi torturada, se decepcionou com o comunismo rompendo com o partido e passou a defender um socialismo de linha trotskista. Se separou de Oswald, e do casamento com Geraldo Ferraz teve seu segundo filho. Em viagem à China, Pagu trouxe as primeiras sementes de soja que entraram no Brasil. Retomou o jornalismo e iniciou uma nova jornada entre as artes sendo reconhecida como grande incentivadora do teatro em Santos, cidade onde passou a viver. Em seu trabalho junto a grupos teatrais, revelou e traduziu grandes autores até então inéditos no Brasil como James Joyce, Eugène Ionesco, Arrabal e Octavio Paz. Crítica literária, escritora, jornalista, Pagu foi acometida de um cancer que a levou a tentar o suicídio em Paris. Morreu em 1962 no Brasil.
Em 2004 uma catadora de papel encontrou, em Santos, uma grande quantidade de fotos e documentos da escritora e do jornalista Geraldo Ferraz, seu último companheiro. Estes fazem parte hoje do arquivo da UNICAMP.
Para saber mais sobre Pagu clique aqui.




(fotos:ligiapin)
agosto 17, 2010
Bienal 2010
Lúcia Hiratsuka lançou "Muli", pela DCL, as 14h00.
Caprichando no autógrafo sob olhares atentos. No mesmo horário, numa outra rua da Bienal, Cris Eich falava sobre ilustrações para um platéia eclética.
As crianças desenhando enquanto ouviam a ilustradora.
Lendo o texto que iria ilustrar logo em seguida.
Não foi este.
Acho que foi este.
JC fazendo a vez de videomaker, com cara de quem está aprontando alguma (acho que ele vai odiar se ver aqui).
Jujuba (filha de Cris&JC) e eu devidamente caracterizadas para o evento.
Cris e a famosa cena de Alice (adoro essa ilustra).
Risk, risk, risk... e está pronto. Aposto que se eu fizer risk, risk, risk vai sair algo bem diferente (KKK).
Outros eventos paralelos: Ziraldo, o pai do Maluquinho. A platéia atenta do lado de dentro. Eu, bisbilhoteira, clicando do lado de fora.
Mauricio de Sousa, pai da Turma da Monica, em meio a uma verdadeira parafernália de jornalistas, fotógrafos e fãs. Eu, de novo, passando por ali e clicando de longe. Teve mais coisas e gentes interessantes, mas nada de fotas. Livros? Muitos, mas não parei com calma pra ver nada em especial como sempre faço. O frio tirou totalmente meu ânimo. Nunca senti tanto frio na vida. Por isso, o resto vai ficar pra próxima visita (só não sei se será nesta ou na próxima Bienal).(fotos:ligiapin)
junho 23, 2010
junho 18, 2010
junho 03, 2010
A voz da poesia

Próximos encontros:
19 de junho (18h30) – José Paes de Lira (Lirinha) e Marcelino Freire
3 de julho (18h30) – Alzira E e arrudA
17 de julho (18h30) – Tom Canhoto e Celso de Alencar
31 de julho (18h30) – Reynaldo Bessa e Edson Cruz
Local: BIBLIOTECA ALCEU AMOROSO LIMA
Avenida Henrique Schaumann, 777 – Fone 3082-5023
Entrada franca
fevereiro 24, 2010
fevereiro 18, 2010
fevereiro 17, 2010
Sabe da última?
O querido Tino Freitas, que faz os Roedores de Livros acontecer lá em Brasília junto com Ana Paula, agora tem um blog pessoal para contar as boas novas do mundo das letras e imagens. Clique na placa para emplacar nessa também!Ticunas
Os ticunas falam uma língua considerada isolada, que não mantém semelhança com nenhuma outra língua indígena e apresenta complexidades em sua fonologia e em sua sintaxe. Sua característica principal é o uso de diferentes alturas na voz, peculiaridade que a classifica como uma língua tonal.
O uso intensivo da língua não chega a ser ameaçado pela proximidade de cidades ou mesmo pela convivência com falantes de outras línguas no interior da própria área ticuna: nas aldeias, esses outros falantes são minoritários e acabam por se submeter à realidade ticuna, razão pela qual, talvez, não representem uma ameaça linguística.
Vale lembrar que os Ticunas lançaram o "O livro das árvores" (1997), ricamente ilustrado por crianças e jovens indígenas e organizado pelos Professores Ticuna Bilíngues. Leia mais aqui, e aqui.

novembro 22, 2009
Fim de semana

... a nova vitrine de uma das lojas da Cultura...
... os livros com ilustras de Jean Claude - ;o)...
... e um singleo senhor que nos espera no interior da loja.
Exposição de trabalhos manuais no Conjunto Nacional.


... e arte de rua (com fotos - escondidas, please... hahaha). 

Então fico um pouco mais na lojinha do Masp para aproveitar o ar fresco.






