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maio 01, 2012

Violet Beauregarde



Versão 1971 para o cinema.

 
"Criança que não tira chiclete da boca
Fica com cara de cabeça oca,
É pior ainda que criança remelenta,
Mais irritante, feia e nojenta.
A propósito disso me vem à memória
Esta trágica, horrível e triste história:
Era uma vez a doce Teresa
Que apesar de dona de rara beleza,
Mulher de respeito e fina senhora
Comprava chiclete a toda hora.
Mascava chiclete o dia inteiro,
Na cozinha, no quarto, no banheiro,
Na rua, no trabalho, dentro da igreja,
E até no barzinho tomando cerveja.
O chiclete da moça virou piada,
As pessoas comentavam e davam risada.
Um belo dia acabou a comédia
E o que era engraçado virou tragédia.
O hábito da moça virou mania;
Ela quis parar e não conseguia.
 No meio da noite se o chiclete acabava,
Teresa ia mascando tudo o que achava:
Bala, macarrão, queijo, berinjela,
Se acabava a comida mascava a panela.
Mastigava almofada, toalha, tapete,
Pasta de dente, escova e sabonete,
Bolsa, sacola e sola de sapato,
Ia pro jardim e comia até mato.
Sua boca mascava que nem maquininha
Teresa acabou perdendo o que tinha.
O queixo cresceu, a boca inchou,
Foi indo, foi indo, Teresa pirou.
Nem pra dormir ela tinha sossego
É claro que acabou perdendo o emprego.
Por isso essa tal Violeta Chataclete
Que já é meio chata e metida a vedete
Precisa com urgência de uma lição
Porque daqui a pouco não tem salvação.
Uma coisa é saber que a menina Violeta
Sempre vai ser um pouco zureta.
Mas ninguém lhe deseja a imensa tristeza
De acabar maluca como a Tereza.”

(Roald Dahl. A fantástica fábrica de chocolate. Martins Fontes)
Versão 2005 para o cinema.

abril 30, 2012

Verusca Salt

As cinco crianças que Roald Dahl criou para a Fantástica Fábrica de Chocolate, na década de 1960, ainda parecem atuais. Quem leu o livro sabe que, para cada um deles, o autor escreveu um poema criativo e divertido salientando as características mais marcantes de cada personagem.
Recomeço as postagens que estavam paradas com Verusca Salt,
;o)

Versão de 1971 para o cinema.


“Sal demais em qualquer comida
Deixa a gente com a garganta ardida.
Veroca Sal não é sal, é criança,
Mas deixou entre nós ardida lembrança.
Mimada, estragada, entojada, briguenta,
Tem tudo o que quer e não se contenta.
Escreveu não leu ela chama o pai,
Só abre a boca e pede o que sai:
Brinquedos, doces, qualquer bugiganga.
Se é tempo de uva ela pede manga,
Se em casa tem doce ela pede salgado,
Se tem rapadura ela pede melado.
Se está na Itália quer ir pra Argentina,
Se está na praia quer ir pra piscina.
Exige e quer tudo o que sonha
E o pai obedece que nem um pamonha.
A mãe, outra tonta, está sempre aflita,
Naquela família só a filha é que apita.
Mas na fábrica quem manda é Seu Wonka
E a Veroca acabou levando uma bronca:
Você pensa que aqui está na sua casa?
Que pode pedir galinha sem asa
E querer transferir o Amazonas pro Nilo?
Pois só faltava querer um esquilo!
Pra uma menina com tanto capricho
O melhor lugar é no meio do lixo.
Mas não se preocupe, vai ter companhia,
Vai ter papel velho e caixa vazia,
Lasanha estragada ainda com molho,
Feijão azedo com resto de repolho,
Espinha de peixe, osso de galinha,
Casca de banana e lata sem sardinha.
Pra quem só conhece riqueza e luxo
Vai ser difícil agüentar o repuxo.
Mas pra Veroca é esse o remédio
Pra não acabar morrendo de tédio.
Pois essa mania de pedir só besteira
Bem lá no fundo é uma grande canseira.”

(Roald Dahl. A fantástica fábrica de chocolate. Martins Fontes)




Versão de 2005 para o cinema.

novembro 21, 2011

Sarau, poesia e balões



O pessoal da Cooperifa lança poesia no céu da cidade. Leia clicando na imagem.


novembro 20, 2011

Pão e Poesia

O Projeto "Pão e Poesia" chegou para alimentar a alma dos mineiros. Criado em 2008 por um analista de sistemas apaixonado por literatura, Pão e Poesia consiste em veicular poemas impressos nos saquinhos de pães de várias padarias da região de Belo Horizonte.

Conheça mais sobre o projeto clicando aqui.

novembro 01, 2011

Poesia


Por Sérgio Rizzo - Revista Lígua Portuguesa (ed.71)

Não são poucos os que encaram a poesia intimidados, como se essa atividade criativa fosse reservada a "eleitos". O respeito cerimonioso termina por afastar muita gente de uma prática textual que exercita mais do que a capacidade de escrever. Poemas ativam um modo particular de apreender o mundo e de se relacionar com ele, como demonstra o drama sul-coreano Poesia. Ex-professor de ensino médio e escritor de prestígio em seu país, o diretor e roteirista Lee Chang-dong conta a história de Mija (Yun Jeong-hie). Solitária, já acusando o desgaste físico provocado pela idade, ela sobrevive graças a bicos como enfermeira. Além disso, precisa cuidar do neto adolescente; a mãe do rapaz mora em outra cidade e, pelos indícios, não parece muito próxima a ele.
Esforçada e prestativa, Mija balança, no entanto, quando descobre ser vítima do mal de Alzheimer. Ainda em sua fase inicial, a doença já lhe provoca pequenos lapsos de memória e de uso da linguagem verbal. A poesia entra em seu cotidiano nesse momento doloroso em que, forçada a lidar com a degeneração e a perspectiva da morte, ela prefere agarrar-se à vida e, entre outras atitudes, inscreve-se em um curso ministrado por um poeta.

Intimista
Na turma, ninguém tem experiência com criação literária ou predileção muito especial por leitura. São leigos. E daí? Uma das primeiras atividades propostas pelo professor, ponto de partida para a compreensão do que representa a poesia, consiste em pedir aos alunos que olhem para o mundo como nunca o fizeram. Ou seja: antes de escrever, que observem. E que o façam empenhados em promover descobertas. As palavras vêm em seguida.

Poesia recebeu o prêmio de melhor roteiro pelo júri oficial e uma menção especial do júri ecumênico no Festival de Cannes de 2010. Essas distinções ajudaram a dar maior visibilidade a um filme discreto e intimista que, sem elas, correria o risco de passar despercebido na barulheira dominante do mercado cinematográfico. Descobrir sua beleza é também um modo de se dedicar, como espectador, à poesia.

POESIA (Shi) - Coreia do Sul, 2010, 139 min. Direção e roteiro: Lee Chang-dong. Com Yun Jeong-hie, Ahn Nae-sang, Lee Da-wit. Distribuição em DVD: Imovision







outubro 30, 2011

O primeiro caderno

O PRIMEIRO CADERNO - Moacyr Scliar

"Emoções há muitas na vida, e de todos os tipos, mas raras se comparam em intensidade àquela que a gente tem quando se compra o primeiro caderno escolar. De cinqüenta folhas ou de cem, pautado ou sem pauta, humilde ou sofisticado, não importa: o primeiro caderno é o símbolo de uma nova etapa. De uma nova vida. Pois as páginas em branco, modestas e radiantes em sua pureza, são exatamente isto: uma prova de renovação, de um início de vida. Mesmo quando a sua vida ainda está no início (e muito mais quando se é adulto: quem de nós não resolveu passar a vida a limpo, pensando exatamente nisto, num caderno novinho a ser escrito com todo o capricho e dedicação?).

Não sei se ainda é assim, mas quando eu era guri a gente recebia, no colégio, uma lista do material a comprar, incluindo os cadernos. Esta simples lista já era, em sua discriminação, um excitante enigma. Cadernos de cem folhas, de duzentas: aquilo decerto era para matérias muito sérias, de longas digressões. Os cadernos mais finos acenavam com coisas leves. Os quadriculados se propunha a nos ensinar as disciplinas de geometria, das contas de aritmética, o caderno de caligrafia lembrava que há limites para a dimensão das letras. Havia um caderno de música, decerto para entusiasmar um futuro Beethoven, e um caderno de desenho, este a desafiar a imaginação com folhas brancas de papel cartonado. E havia os humildes blocos, já resignados a serem riscados, borrados, engordurados e rasgados; a terem suas folhas transformadas em aviãozinho (qual a criança que não faz aviãozinho de papel quando a professora dá as costas?). Os cadernos exigiam mais respeito; os mais aplicados chegavam a encapá-los com papéis de presentes alegres. Mostrar os cadernos aos colegas fazia parte do excitante clima do começo do ano, que chegava a seu ápice quando se escrevia, na primeira página do primeiro caderno, a primeira lição de casa: um ato realizado num clima de quase mística unção, as letras sendo caprichosamente desenhadas, uma após a outra.

Mas os dias passam, as lições para casa se sucedem, os cadernos, como todas as coisas, vão ficando velhos, manchados, amassados. Algumas folhas são arrancadas, outras caem, e um dia a capa se desprende também e é colada com um durex que logo fica também sujo, encardido. O caderno resiste bravamente, mas o tempo trabalha contra ele: um dia chega o fim do ano, os exames finais. Há ainda uns derradeiros momentos de glória, de febril emoção, quando o caderno é de novo e nervosamente folheado, em busca dos pontos que cairão na prova.

Mas aí vem o resultado final – passei! Mãe, pai, passei! – num gesto de irresponsável, mas compreensível alegria, o caderno é arremessado longe, às vezes até pela janela. Cai na rua, um carro passa sobre ele, termina de destruí-lo: o vento leva para longe as folhas soltas, e algum papeleiro recolherá o que dele resta. O menino vai para as férias, volta, e um dia entra numa papelaria, os olhos brilhando, com uma nova lista de cadernos para comprar."

ps.: eu ainda tenho meu primeiro caderno, mas não encontrei para fotografá-lo. :o(

outubro 26, 2011

A menina que falava internetês



A menina que falava internetês

Rosana Hermann


A mãe gostava de acreditar-se moderna. Do figurino à linguagem, esforçava-se para estar sempre up-to-date com as últimas tendências da moda. Seus objetivos eram claros: criar uma imagem de mulher mais jovem e fazer bonito para os filhos, os reis da tecnologia doméstica, que dominavam tudo na casa, dos controles remotos dos aparelhos eletrônicos aos computadores e laptops. Foi o propósito de não perder o bonde da história que levou Wanda a comprar um computador pessoal, assinar um provedor de acesso e começar a navegar pela internet. Nada poderia detê-la rumo à modernidade!
Depois de alguns dias, navegando em seu trabalho, encontrou sua filha pré-adolescente on-line. Não resistiu à tentação e iniciou uma conversa através de um programa de mensagens instantâneas.
— Olá, filha, aqui é a sua mãe, navegando pela internet… Tudo bem com você, querida?
— blz.
— Como? Não entendi, filhinha. Seu teclado está com algum problema nas vogais?
— naum.
— Vejo que não é este o problema, já que você digitou duas vogais agora mesmo! Mas pode ser um defeito nas teclas de acentuação. Por favor, filha, teste o ‘til’.
— q tio?
— Não, não o tio, o til. O til é o irmão do papai, o tio Bruno. O til é aquele acento do não, do anão, da mamãe… Lembra quando a mamãe ensinou a você que o til parecia uma minhoquinha?
— nem
— Nem? Como assim, ‘nem’? Nem no sentido de conjunção coordenativa aditiva como ‘não lembro nem quero lembrar’? Ou seria ‘nem’ como conjunção coordenativa alternativa, como em ‘não me lembro e nem parece uma minhoquinha’?
— ;-(
— Que foi isso, filhota?
— naum quero + tc com vc
— Você… não quer mais tecer comigo?
— teclar
— Assim mamãe fica triste, lindinha. Eu só queria conversar, puxar algum assunto. Mas está difícil. Eu não entendo o que você escreve e você não se interessa pelo que eu digito. Realmente, meu bem, parece que não é possível estabelecer um diálogo com você. Tudo bem, se eu tiver incomodando, eu paro agora mesmo.
— ta
— Antes de ir pra casa eu vou passar no supermercado. O que você quer que eu compre para… para… para vc? É assim que se diz em internetês?
— refri e bisc8
— Refrigerante e biscoito? Biscoito? Filha, francamente, que linguagem é essa? Você estuda no melhor colégio, seu pai paga uma mensalidade altíssima e você escreve assim na internet? Sem vogais, sem acentos, sem completar as palavras, sem usar maiúsculas no início de uma frase, com orações sem nexo e ainda por cima usando números no lugar das sílabas? Isso é inadmissível, Maria Eugênia!
— Xau, mãe, c ta xata.
— Maria Eugênia! Chata é com ch!
—
— Maria Eugênia?
—
—Desligou. Bem, pelo menos a tecla til está em ordem.

outubro 04, 2011

Graduações da amizade



Amigo do peito.
Amigão.
Velho amigo.
Meu melhor amigo.
Conheço-o há muito tempo.
Conhecido metido a amigo.
Amigo que cai de turma e vira conhecido.
Sempre foi muito legal comigo.
Conhecido íntimo.
Conhecido afetuoso.
Conhecido que se diz amigo.
Conhecido que finge que não nos vê em certas situações.
Amigo intenso que não se vê há muitos anos.
Amigo passivo.
Amigo de convivência esparsa e rara.
Amigo de todas as horas.
Amigo das horas difíceis.
Amigo só de horas fáceis.
Amigos encrenqueiros.
Amigos adoráveis.
Amigos trabalhosos.
Amigo de Fé.
Conhecido de vista.
Falso íntimo.
Amigo a quem não se conhece pessoalmente.
Amigo da Internet.
Conhecido da Internet.
Chato da Internet.
Afinidade especial na Internet.
Amigo dela de quem foi caso secreto no passado.
Amiga dele de quem foi caso secreto no passado.
Ex–amigo que ainda não sabe que já é.
Candidato a ex-amigo.
Amizade que deixamos escapar.
Amizade unilateral.
Admiração sem amizade.
Amizade com inveja.
A mútua admiração da amizade.
A impossibilidade do amigo morto.

Mario Prata

setembro 29, 2011

Procura-se



setembro 07, 2011

Solidão em tempos modernos




Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.

O que se busca, hoje, é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência – e pouco romântica, por sinal.

A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.

O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral. A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa à aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade.

Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva. A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém.

Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.

Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém: algumas vezes, você tem de aprender a perdoar a si mesmo…

Flávio Gikovate

agosto 08, 2011

UM POR TODOS!!


UM POR TODOS! é um fanzine que faz parte do projeto Literatura (é) Possível, produzido pela Comunidade do Jardim Verônica, em Ermelino Matarazzo. Com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura em 2010, o projeto conseguiu melhorias como a compra de equipamentos e a impressão do zine - resultado de oficinas, saraus, atividades lúdicas e literárias.

Para conhecer mais sobre o trabalho dessa turma, acesse o blog dos mesquiteiros. Abaixo, um texto de Débora Pereira, publicado no UM POR TODOS! número 1.




S.O.S.
Socorro mãe! Socorro!

Ela vai me matar!

Já me comeu viva
com aqueles olhos,

grandes e esbugalhados!
Socorro mãe! Socorro!

Ela ta me perseguindo

correndo atrás de mim!

Sua pele branca e pálida me assusta,

me apavora!

Socorro mãe! Socorro!

Tem uma largatixa no banheiro!!!!

junho 19, 2011

Dica



maio 22, 2011

Cortes



Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Clarice Lispector

maio 01, 2011

Palavras, palavrões

As palavras, assim como as roupas, revelam os contornos daquilo que escondem
Deonísio da Silva*

É provável que todas as línguas tenham palavrões, mas falantes do inglês, do alemão, do italiano, do espanhol e do francês, com cerca de 9 mil expressões chulas em cada língua, dizem mais baixezas do que falantes do português, que só dispõem de 3 mil obscenidades.

É de Mário Souto Maior o Dicionário do Palavrão e Termos Afins, um dos 508 livros proibidos no Brasil pós-64. Ele concluiu que o homem, o jovem e o pobre falam mais palavrões do que a mulher, o velho e o rico. A edição mais recente saiu em 2010, prefaciada por Fernando Lyra, o ministro da Justiça que em abril de 1985, no Teatro Casa Grande, no Rio, liberou os livros até então proibidos.

Mães e filhos são muito invocados nos palavrões. Só perdem para maridos enganados. As fronteiras entre o humor, a arte e a obscenidade nesses aumentativos proibidos são movediças, de acordo com o contexto histórico, político e social.

O primeiro livro sobre as gírias da língua portuguesa é Infermidades da Língua, de Manuel Joseph Paiva, publicado no século 18. O autor preferiu "infermidades" a "enfermidades", privilegiando um dos significados da palavra: infirmitate, declinação de infirmitas, é fraqueza, em latim, um conceito um pouco diverso do que predominaria tempos depois. As "infermidades" vinham de onde menos eram esperadas. Nas pesquisas para Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre encontrou nas Denunciações do Santo Ofício o hábito católico de "jurar pelos pentelhos da Virgem".

Caraculum
Albert Audubert, professor na USP por 15 anos, registrou em livro publicado em francês, na Alemanha, que no Rio e em São Paulo a expressão "abrir as pernas" tinha no comércio o significado de ceder, como no sexo. Xibio, originalmente um diamante, consolidou-se para designar a vagina, que em latim era a bainha onde o soldado guardava a espada. Hoje, "espada" designa também o homem heterossexual. Aliás, é pretensão masculina designar seu órgão sexual a partir do latim caraculum, estaca, mas o marinheiro de Cabral que avistou o Brasil estava na casa do caraculum, no alto da gávea, um lugar de castigo, sujeito a frio, sol, chuva, tempestade! Enfim, as palavras, como as roupas, revelam outros contornos do que querem esconder.

*Escritor, doutor em letras pela USP, professor e vice-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro



Publicado na Revista Língua Portuguesa Edição 66 (2011)

abril 19, 2011

19 de Abril





SENTIR SER ÍNDIO

Eu sinto que sou índio
porque meu pai é índio, minha mãe é índia,
meu avô é índio, minha avó é índia,
e meus parentes são todos índios.

Sinto que sou índio
porque falo minha língua,
uso a minha cultura e tenho outro costume,
pinto meu rosto com jenipapo e urucu,
uso nossas armas e nosso artesanato.
Como jacaré, tatu, anta, peixe, macaco
.
Como caiçuma, cipó, danço o mariri.
Canto a cantoria na nossa língua.
Sinto ser um índio
porque dentro da minha aldeia
cada um de nós é dono de nossa pessoa,
somos livres, temos nossa liberdade.

Sinto que ser índio
é viver junto de nossa família,
com nossos parentes, nossa comunidade.
Usando com cuidado a nossa vida.

É receber cada parente nosso,
é não ter diferença de sangue preto ou branco,
é ser tudo igual.

Todo índio é trabalhador, plantador, caçador.
Índio não é brigador.

Sinto que sou índio
porque não tenho cara de branco,
meu corpo é diferente,
meu jeito de caminhar é diferente.

meu cabelo é liso,
não tenho barba
e nem pêlo enrolado no braço e na perna.
Índio tem pêlo liso no suvaco e na canela.

Somos iguais e diferentes.
Diferentes na língua, jeito e costume.
Igual no corpo, na inteligência e no respeito.
Somos todos iguais: índios, negros e brancos.

Sentir ser índio
é não ter vergonha de ser índio no meio de branco
é sentir ser o primeiro habitante dessa terra
é sentir ser floresta, rio, igarapé e tudo que pertence à natureza.
Os índios precisam ser respeitados.
Os índios são as raízes da floresta.

(Grupo de professores indígenas do Acre)

março 21, 2011

Hoje

Se tiver que ir, vai. O que fica pra trás, não sendo mentira, não racha, nem rompe, não cai. Ninguém tira. Já que vai, segue se depurando pelo trajeto, para desembarcar passado a limpo, sem máscaras, sem nada, sem nenhum desafeto. Quando chegar, sobe ao ponto mais alto do lugar, onde a encosta do mundo faz a curva mais pendente. E então acena. De onde eu estiver, quero enxergar esse momento em que você vai constatar que a vida vale grandemente a pena.

(Flora Figueiredo)

março 19, 2011

A invenção do guarda-chuva

(Ilustração Chiara Fatti)

"Quem está na chuva

tem que se molhar",

era o que todos diziam.

Todos, menos o inventor

do guarda-chuva.

Cansado de andar encharcado

até criou um novo ditado:

"Quem está na chuva

fica resfriado".

Um dia,

no temporal,

botou na cabeça

uma bacia.

A cada passo, a água subia

e a bacia enchia.

Quando chegou em casa,

sua tia, viúva,

disse: "Que é isso menino,

vai guardar a chuva?".

Pronto, aquela fala

caiu como uma luva.

Ele inverteu a bacia

e inventou o guarda-chuva.
(Ricardo Silvestrin. É tudo invenção. Ática)

março 15, 2011

Brincar de ouvir barulho...

Ouvir nas conchas
o som das ondas
do mar
e o vaivém
do ar....

(Poema Selma Maria/ Ilustração Alessandra Fusi)

março 13, 2011

Aviso às borboletas



Rompi minha crisálida.
Agora sou uma borboleta feliz e ansiosa que fia com urgência a sua história.
Sei que a minha existência é breve e preciso projetar para o mundo o tempo em que hibernei.
No meu ciclo de larva eu já recolhia tudo - a metamorfose das cores, o veneno necessário,
a experiência do mel. Involuntariamente eu me construía para o centro, sugava com as patas a seiva das plantas, me preparava para o dia de voar. Mal podia supor que as minhas asas seriam essa tatuagem de todas as formas, sobreposição de escamas cintilantes igual a um telhado suspenso no ar. Asas, minha enseada e minha perdição.
Acho mesmo que as antenas aguçadíssimas e os olhos sensíveis ao som vieram dessa minha vontade de ir sempre além. É arriscado voar e é por isso que eu vôo. Sou atraída por novas montanhas e desconhecidas planícies - não posso esperar porque o tempo que me pertence é uma única estação. Vôo para estar na aventura do vôo e vôo também pelas borboletas domesticadas que perderam a ousadia de voar. São asas que se tornavam apenas ombros, e "os ombros suportam o mundo", como o Poeta escreveu. Vôo, vôo sim. Já tenho até na asa esquerda algumas violências de pássaro que não são nenhuma ilusão de ótica. É ferida mesmo, marcas do bico de um predador que me avistou nas asas da descoberta e quis me prender. Me feriu, mas em troca recebeu o gosto do meu veneno. Não nasci para perpetuar apenas a doçura do néctar, a seiva que trago no corpo é também minha senha e minha arma. Simples, a minha natureza é feita de círculos, de quebra de planos, de espirais. Não tenho nada a ver com o vôo em linha reta, sou responsável por mim e pela aventura de outras borboletas, minha vida é transgredir. Afinal de contas voar é com os pássaros, e inverter o rumo das coisas, migrar sem descanso no horizonte da procura, é com as borboletas. Por isso a minha história, aconteça o que acontecer, só deve valer para quem sabe que toda verdade é sempre um pedaço de uma outra coisa e que o vôo mais urgente é revolucionar os jardins.

MARINHO, Jorge Miguel. Na curva das emoções. São Paulo: Biruta, 2005.

janeiro 03, 2011

Caderno de Turismo

Zé, essa é boa.
O que danado a gente vai fazer em Lisboa? Bariloche e Shangri-lá? Traslados para lá. Para cá. Travessia de barco pelos Lagos Andinos. Nunca tinha ouvido falar em Viña Del Mar, Valparaíso. A gente não devia sair do lugar.
Quem já viu se aventurar na Ilha do Cipó? Ilha do Marajó? Itacaré? Fugir de dentada de jacaré? O que você quer, homem? Sem dinheiro, chegar onde? Não tem sentido. Oklahoma, nos Estados Unidos. É delírio. Peregrinar até as múmias do Egito.
Que história é essa de cruzeiro marítimo? Caribe, Terra dos Vikings, Mediterrâneo? Enfrentar o Oceano Atlântico? Canadá, Canaã? Deserto de Atacama? Que besteira! Ir para Bali, Beijing, Xian, Xangai, Hong Kong.
Zé, olhe bem defronte: que horizonte você vê, que horizonte? Pensa que é fácil colocar nossos pés em Orlando? Los Angeles? Valle Nevado? Que língua você vai falar no Cairo? Em Leningrado? Nem sei se existe mais Leningrado.
Zé, esquece.
Nada de Andaluzia. Tahiti. A gente fica é aqui. Que Sevilha? Roteiro Europa Maravilha. Safári na África pra quê? Passar mais fome? Leste Europeu, Escandinávia, PQP.
Presta atenção: a gente nem conhece o Brasil direito. Bonito, Chapada Diamantina. Dos Veadeiros. A América Latina. Guiana e Guiana Francesa. Não existe beleza. Rota do Sol. Rota das Estrelas. Perca. Atrase a viagem, Zé. Não parta.
Você não vai para a ilha de Malta, não vai. Eu não deixo. A vida da gente é aqui mesmo. Sempre foi aqui mesmo. Não nascemos no Berço da Civilização, Istambul e Capadócia.
Zé, o que deu na tua cabeça? Ora, joça! Estamos Longe de Miami, homem. Acapulco e Suriname. Nosso destino é um só. A gente não tem dólar. A gente não tem cartão. Deixa de imaginação. Você não tem medo de avião? Tanta asa que cai pelo chão. Atentado, bomba em Bengasi, doença em Botsuana.
Zé, estou sendo franca: olha bem pra nossa cara.
Por que partir para Dinamarca? Caracas? Cancún, Congo? Cachorro a gente enterra em qualquer canto. Enterra aí no quintal, Zé. E pronto.

Marcelino Freire