maio 01, 2011

Palavras, palavrões

As palavras, assim como as roupas, revelam os contornos daquilo que escondem
Deonísio da Silva*

É provável que todas as línguas tenham palavrões, mas falantes do inglês, do alemão, do italiano, do espanhol e do francês, com cerca de 9 mil expressões chulas em cada língua, dizem mais baixezas do que falantes do português, que só dispõem de 3 mil obscenidades.

É de Mário Souto Maior o Dicionário do Palavrão e Termos Afins, um dos 508 livros proibidos no Brasil pós-64. Ele concluiu que o homem, o jovem e o pobre falam mais palavrões do que a mulher, o velho e o rico. A edição mais recente saiu em 2010, prefaciada por Fernando Lyra, o ministro da Justiça que em abril de 1985, no Teatro Casa Grande, no Rio, liberou os livros até então proibidos.

Mães e filhos são muito invocados nos palavrões. Só perdem para maridos enganados. As fronteiras entre o humor, a arte e a obscenidade nesses aumentativos proibidos são movediças, de acordo com o contexto histórico, político e social.

O primeiro livro sobre as gírias da língua portuguesa é Infermidades da Língua, de Manuel Joseph Paiva, publicado no século 18. O autor preferiu "infermidades" a "enfermidades", privilegiando um dos significados da palavra: infirmitate, declinação de infirmitas, é fraqueza, em latim, um conceito um pouco diverso do que predominaria tempos depois. As "infermidades" vinham de onde menos eram esperadas. Nas pesquisas para Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre encontrou nas Denunciações do Santo Ofício o hábito católico de "jurar pelos pentelhos da Virgem".

Caraculum
Albert Audubert, professor na USP por 15 anos, registrou em livro publicado em francês, na Alemanha, que no Rio e em São Paulo a expressão "abrir as pernas" tinha no comércio o significado de ceder, como no sexo. Xibio, originalmente um diamante, consolidou-se para designar a vagina, que em latim era a bainha onde o soldado guardava a espada. Hoje, "espada" designa também o homem heterossexual. Aliás, é pretensão masculina designar seu órgão sexual a partir do latim caraculum, estaca, mas o marinheiro de Cabral que avistou o Brasil estava na casa do caraculum, no alto da gávea, um lugar de castigo, sujeito a frio, sol, chuva, tempestade! Enfim, as palavras, como as roupas, revelam outros contornos do que querem esconder.

*Escritor, doutor em letras pela USP, professor e vice-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro



Publicado na Revista Língua Portuguesa Edição 66 (2011)

2 comentários:

Tino Freitas disse...

PUTZGRILLA!!!

Fanzine Episódio Cultural disse...

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